Neste post eu quero trazer para os nossos pacientes e leitores o que há de novo na literatura sobre o abuso de álcool e a cirurgia bariátrica. Todo mundo que gosta do assunto já deve ter ouvido falar alguma coisa a este respeito, mas será que isso realmente acontece? E qual seria o motivo?

Há uma revisão sistemática sobre o tema publicada no Annals of Translational Medicine (ATM) em abril de 2018, sobre a qual deixo o link aqui, para quem quiser ver na íntegra. Este tema também foi assunto de uma publicação do Medscape em 2017 e o link está também aqui, pra quem quiser conferir.

 

Sobre os estudos

Na revisão publicada no ATM, buscas eletrônicas foram realizadas utilizando seis bases de dados e incluíram dados até janeiro de 2017. Nos estudos a tendência em distúrbios sobre o abuso de álcool pós-cirurgia bariátrica foi identificada e os dados relevantes foram extraídos e analisados. Dez estudos foram incluídos e os resultados mostram que não houve significância estatística nos primeiros dois anos de cirurgia em relação ao período pré-cirurgia, mas após três anos da cirurgia houve sim, um aumento significativo no abuso de álcool, particularmente com a cirurgia de bypass gástrico. Essa conclusão não é possível nas outras técnicas, principalmente por falta de dados.

Quanto à publicação do Medscape, que trata de uma revisão sistemática e meta-análise de 28 estudos, 19% dos pacientes relataram consumo de alto risco de álcool antes da cirurgia. Os autores afirmam que apesar das limitações desta análise por causa da disponibilidade inadequada na literatura de dados em estudos randomizados controlados e em estudos prospectivos “de boa qualidade” e pelas variações nos tempos de acompanhamento, os resultados sugerem que a cirurgia bariátrica está associada a um aumento, de moderado a alto, no risco de uso de álcool.

 

Mas o que acontece com os pacientes? É psicológico?

Parece que não. Talvez o lado psicológico desempenhe algum papel no alcoolismo que acontece após a cirurgia bariátrica, até porque podem ocorrer alguns distúrbios como ansiedade, depressão e abuso de algumas substâncias psicotrópicas. Mas parece que o que há realmente acontece é uma alteração no metabolismo do álcool, principalmente nos paciente submetidos ao bypass. O fato do paciente ter um estômago muito pequeno e não ter mais o piloro funcionante, que é um músculo que regula a passagem dos alimentos do estômago para o intestino, faz com que o álcool atinja o duodeno (primeira parte do intestino fino) muito rapidamente. Isso aumentaria muito a rapidez com que o álcool é absorvido para o sangue e o tempo para que seja eliminado do organismo. Já nos casos de banda gástrica ajustável e nos casos de sleeve, o piloro está presente no trânsito intestinal e funciona normalmente e, portanto, o esvaziamento gástrico não acontece tão rapidamente quanto no bypass, o que explicaria a diferença de resultado nestes casos.

 

O que eu acho de tudo isso

O principal problema com a cirurgia da obesidade, ao meu ver, continua sendo o seguimento a longo prazo. Porque? Por que os pacientes deixam de fazer o segmento multidisciplinar conforme foi combinado, simples assim. Em alguns casos porque os pacientes perderam o convênio médico, outras vezes porque mudaram de cidade, mas na imensa maioria das vezes, porque vão relaxando, perdendo interesse e deixando o acompanhamento multidisciplinar de lado. Tenho dito isso a todos os pacientes que fizeram cirurgia da obesidade comigo e estou sempre alertando os pacientes que estão em pré-operatório sobre esta questão.

Pacientes que fazem o acompanhamento multidisciplinar adequado, têm menor tendência à recidiva, menor chance de apresentar distúrbios psicológicos, metabólicos e nutricionais, lembre-se disso!

Quando estamos na fase de decidir por qual técnica cirúrgica optaremos, eu sempre digo aos pacientes que o que faz a diferença não é o tipo de cirurgia, mas como o paciente vai se comportar depois dela, principalmente no longo prazo, após aquele período que chamamos de lua-de-mel. Este período dura entre um ano e um ano e meio após a cirurgia e tem este nome porque nesta fase, geralmente é só alegria. Os pacientes perdem bastante peso, estão satisfeitos com o resultado da cirurgia e felizes com a sua imagem.

Quem me conhece sabe que, de forma geral, eu tenho uma preferência pelo sleeve. O principal motivo disso é que o segmento tardio desta técnica exige menos dedicação do paciente do que os outros tipos de cirurgia. É mais fisiológica, menos complicada tecnicamente e não faz com que os pacientes sejam obrigados a tomar vitaminas para o resto da vida – mais detalhes sobre isso neste link. Continuo achando que o bypass é uma ótima técnica cirúrgica e continuo realizando estas cirurgias rotineiramente, mas a indicação pelo bypass tem ficado mais restrita aos pacientes diabéticos de difícil controle e aos pacientes que sofrem de refluxo gastroesofágico severo, que é exatamente a tendência observada na literatura. Atenção aqui, porque não eu falei qualquer tipo de diabetes e de qualquer tipo de doença do refluxo, apenas dos casos assinalados!

Concluindo, a relação entre abuso de álcool e a cirurgia bariátrica não é mito e realmente acontece. Mas fazer o acompanhamento médico regular com o seu cirurgião do aparelho digestivo, com o seu endocrinologista, com o seu nutricionista e com seu psicólogo, é o que realmente faz toda a diferença!