A ideia deste post e falar sobre as diarreias agudas que acontecem frequentemente no verão, durante o passeio ou logo depois de chegarmos do mesmo, especialmente quando viajamos para a praia.

A diarreia se caracteriza pelo aumento do número de evacuações e pela perda da consistência das fezes, que podem se tornar desde bem amolecidas, até completamente aquosas ou bastante esfareladas.

A frequência das evacuações na diarreia aguda, pode ser de três vezes ao dia, até mais de dez vezes ao dia.

 

Além da alteração nas fezes o paciente pode apresentar:

  • náuseas e vômitos;
  • febre;
  • dores no corpo;
  • cólicas abdominais;
  • queda do estado geral;
  • sangue e muco nas fezes;

 

Podemos classificar as diarreias, quanto à duração em:

  • agudas, com duração menor de 14 dias, são auto-limitadas, ou seja, usualmente se resolvem sozinhas e em menos de uma semana;
  • persistentes, com duração entre 2 e 4 semanas;
  • crônicas, com duração de mais de um mês;

 

A diarreia é transmissível?

SIM, especialmente as causadas por vírus e bactérias.

Observe que é muito comum as pessoas relatarem que mais de uma pessoa de uma família ou do trabalho tenham apresentado diarreia em questão de alguns dias.

Habitualmente culpamos uma comida específica que supostamente estava estragada, o que pode até ser verdade em algumas situações, principalmente quando muitas pessoas consomem um determinado alimento em uma festa, por exemplo, mas na maioria das vezes, a contaminação acontece de outra forma. Falarei disso mais à frente.

 

Quais as principais causas?

  • vírus (principalmente Norwalk e Rotavírus);
  • bactérias (Escherichia coli enteropatogênica, Salmonelas, Shigella, Staphyloccocus aureus, Campylobacter jejuni, Yersínia e Vibrio cholerae, entre outras).
  • toxinas (de algumas das bactérias citadas);
  • outros parasitas (principalmente Entamoeba histolytica, Cryptosporidium, Giardia lamblia);

 

E porque acontecem no verão?

Como foi dito, as diarreias agudas comumente são causadas por vírus, bactérias e outros parasitas e no verão, especialmente quando vamos à praia, ficamos expostos ao calor e à algumas outras situações que facilitam a contaminação por estes agentes.

O calor facilita a proliferação e a disseminação destes microrganismos, motivo pelo qual, guardamos nossos alimentos em refrigeradores.

A transmissão geralmente se dá através da água e de alimentos contaminados, mas pode ocorrer através do que você leva à boca, aos olhos e ao nariz, quando passa a sua própria mão nestas áreas do seu corpo, logo após contaminá-las em locais onde um paciente que teve ou que está com diarreia tocou antes. Pode ser em banheiros, refeitórios, no transporte público e no contato direto com estas pessoas.

É interessante lembrar que muitas vezes um paciente continua passando estes agentes infecciosos para outras pessoas, mesmo que já esteja há dias sem os sintomas!

 

Confira algumas situações de risco:

  • se alimentar com muita frequência fora de casa, em bares, restaurantes e até em barracas de praias que podem não ter o cuidado adequado com a higiene do local, com a higiene dos funcionários e com a conservação dos alimentos;
  • consumir os alimentos ali mesmo na praia, sem que estejam devidamente acondicionados sob refrigeração adequada;
  • beber água que não seja devidamente tratada, de preferência mineral;
  • colocar nas bebidas gelo que você não conhece a procedência (gelo no litoral é caro e os ambulantes comumente fazem gelo nas suas próprias casas, muitas vezes, em garrafas pet, que não são adequadamente higienizadas para isso);
  • tomar refrigerante ou cerveja na própria latinha, sem a higienização prévia da lata;
  • frequentar locais com grande aglomeração de pessoas;
  • consumir frutos do mar, maioneses e cremes sem adequada refrigeração, porque são alimentos que estragam muito facilmente;
  • não lavar adequadamente as frutas e verduras;

 

E como se prevenir?

Evidentemente, procure não se expor às condições que foram descritas acima, mas a melhor maneira para se prevenir é, definitivamente, lavando bem as mãos, com bastante sabonete ou sabão e várias vezes ao dia.

 

Considerações importantes

Como foi dito inicialmente, as diarreias agudas geralmente são autolimitadas, ou seja, se você não fizer nada, elas geralmente se resolvem sozinhas. É claro que isso não acontece do dia para a noite e, acredite, tem muito pouca coisa que você possa fazer para ficar livre rapidamente do problema.

Normalmente temos um quadro inicial que traz grande chateação, com vômitos, mal estar, cólicas abdominais, mas que começa a melhorar em um ou dois dias. Depois disso a frequência e o volume das evacuações começa a melhorar e geralmente retorna ao normal ou muito próximo do normal em 5-7 dias, mas pode se prolongar muito mais.

É muito comum, entretanto, que o paciente já esteja apresentando melhora da consistência das fezes, que já esteja com o estado geral bem melhor e praticamente sem outros sintomas, mas num belo dia, há uma evacuação diferente, com fezes esfareladas, o que dá a impressão de que a doença voltou.

Os pacientes normalmente interpretam isso como piora do quadro, entendem que a diarreia está voltando e que precisam procurar um médico imediatamente. Saiba que isso é comum e que, provavelmente, melhorará em um ou dois dias sem fazer nada.

 

Parece que até água me faz mal

Outra coisa que comumente assusta os pacientes é que no início do quadro, temos a impressão de que tudo o que comemos, inclusive água, nos faz mal. Isso acontece, porque quando nos alimentamos há a distensão do estômago, que por sua vez, estimula as contrações do intestino, fenômeno que é conhecido como reflexo gastro-cólico e que fica muito exacerbado nessas situações.

Por causa disso, o paciente comumente se alimenta muito pouco e isso pode piorar o quadro. Entenda:

Dependendo do agente etiológico que causou a gastroenterocolite, que é o nome técnico dessas diarreias infecciosas, pode haver em maior ou menor grau, o acometimento do estômago, causando uma gastrite. Isso mesmo, gastrite! E tudo o que não queremos neste momento é o jejum, que piora bastante a inflamação no estômago.

Além disso, o processo inflamatório nos intestinos, faz com que o paciente perca muita água e eletrólitos, o que deve ser reposto, quando possível, pela simples ingestão adequada de água e alimentos.

 

Devo consumir medicamentos para “cortar” a diarreia?

NÂO! De forma geral, na diarreia aguda, que tem um ciclo autolimitado, a idéia é não tomar medicamentos antidiarreicos como a loperamida (Imosec), por exemplo. Tentamos deixar o organismo resolver o problema eliminando as toxinas e os germes de forma natural.

Medicamentos anti-secretórios como a racecadotrila (Tiorfan, Avide) e o zinco, podem ser usados sem problemas e tem seu benefício em diminuir o tempo da diarreia.

Probióticos também tem seu lugar nas diarreias agudas e vêm sendo usados com bastante frequência.

O uso de nitazoxanida e outros anti-helmínticos e antiparasitários deve ser individualizado.

Também não devem ser prescritos, de forma indiscriminada, os antibióticos e antieméticos, que ficam reservados para casos especiais.

Outros medicamentos como os anti-ácidos e os inibidores de bomba protônicas (omeprazol, pantoprazol…), podem ser necessários em alguns casos.

 

E o que devo fazer?

Tome bastante água! Isso pode ser um pouco difícil, especialmente no primeiro dia, mas é fundamental.

Se alimente! Como eu disse anteriormente, há uma certa tendência de não nos alimentarmos, seja pela falta de apetite ou pela falsa impressão de que isso piora a diarreia.

Lembre-se que cuidar da desidratação e da perda de eletrólitos é o foco principal do tratamento!

Faça pequenas refeições, várias vezes ao dia e nunca fique em jejum!

Aposte nas carnes magras como frango e peixe, no arroz, batata, sopas e mingaus. Maçã e banana são bem vindos.

Evite alimentos gordurosos, muito condimentados e de mais difícil digestão.

Como é relativamente comum o envolvimento do estômago, evite a cafeína de forma geral (café, chás e refrigerantes) e alimentos muito ácidos, como limão e vinagre e as frutas cítricas.

 

Quando devo ficar preocupado?

Quando o quadro diarreico está demorando muito para cessar ou se você não está conseguindo se alimentar e se hidratar em casa, porque está vomitando muito, por exemplo, é interessante procurar um serviço de pronto atendimento para tomar soro e ser avaliado por um médico.

Outro motivo que sugere uma consulta médica é o fato de apresentar sangue e muco nas fezes, o que pode sugerir a contaminação por bactérias mais agressivas, situação que pode exigir a prescrição de antibióticos.

Os idosos e as crianças merecem atenção especial. Na dúvida, sempre procure um médico especialista!