Você sabia que mais da metade das mulheres que chegam ao consultório de um gastroenterologista para uma consulta qualquer, reclamam que são constipadas? Esse número é realmente impressionante, mas saiba nem todas sofrem de constipação.

Há muita confusão sobre o que é ou não normal em relação ao funcionamento dos intestinos e, por conta disso, vejo muitas pessoas culpando seus intestinos injustamente. Isso também faz com que usem medicamentos para gases, laxantes, analgésicos e antiespasmódicos de forma inadequada.

Mas, afinal, quantas vezes é normal ir ao banheiro? Será que é  preciso ir ao banheiro todos os dias? Mesmo se eu não estiver com vontade, devo fazer força até que eu consiga evacuar?  Será que eu tenho muitos gases porque eu não vou ao banheiro todos os dias?

 

Inicialmente quero desfazer alguns mitos e conceituar o que consideramos constipação intestinal, que é do que trataremos aqui neste post:

O hábito intestinal do ser humano varia enormemente de indivíduo para indivíduo, de tal forma que consideramos um hábito intestinal normal, o que varia de 3 evacuações ao dia até 3 evacuações por semana.

Isso é o que consideramos normal com relação a quantidade de idas ao banheiro, ou seja, a frequência de evacuações, mas a constipação também pode ser entendida como a dificuldade de exonerar as fezes, necessidade de muita força para que isso aconteça ou de ficar com a sensação de que as fezes não foram eliminadas completamente. 

A constipação acomete mais de 20% da população, é mais comum nas mulheres e nos idosos. Existem várias situações que podem estar envolvidas e influenciar nos movimentos intestinais, como por exemplo:

  • hormônios (no período menstrual há mais facilidade de ir ao banheiro e as mulheres gestantes normalmente ficam com os intestinos mais presos);
  • alimentos (café, leites e derivados, vinho, mamão e outros alimentos podem acelerar o funcionamento do intestino e outros como massas, pão, arroz, batata, maçã, banana podem fazer com que fiquem mais lentos);
  • suplementos alimentares
  • questões emocionais (estresse, ansiedade e depressão são comumente causas de alterações do hábito intestinal);
  • doenças (doença de Parkinson, doença de Alzheimer, diabetes, hipertireoidismo e hiperparatireoidismo comumente cursam com constipação intestinal);
  • medicamentos (antiácidos como o hidróxido de alumínio soltam o intestino e hidróxido de magnésio costumam prender o intestino, já analgésicos opioides e os antidepressivos costumam causar constipação);
  • síndrome do intestino irritável (leia mais sobre isso aqui);
  • sedentarismo e imobilidade reduzida;
  • baixa ingestão de líquidos;

 

Não faça força!

Algumas pessoas ficam bastante tempo sentadas no banheiro e não saem de lá enquanto não evacuam. Isso definitivamente não é uma boa! Com isso você acaba facilitando o aparecimento de hemorroidas, provoca flacidez perineal, pode causar prolapso retal e fissuras anais.

 

Respeite a sua vontade de evacuar

É interessante como temos vergonha de ir ao banheiro na casa dos outros, quando alguém está em casa ou quando estamos viajando. Todos temos que evacuar, mas ainda assim, parece que tentamos esconder quando o fazemos, não é mesmo?

Sabe o que acontece por causa disso? Com o passar do tempo vamos perdendo um elemento importantíssimo para o bom funcionamento intestinal, que se chama reflexo gastrocólico. Estamos falando de um estímulo nervoso e hormonal que o estômago envia para os intestinos logo depois de uma refeição. Todo mundo sabe que um bebê faz cocô logo depois de mamar, o mesmo acontecendo com vários mamíferos, como um cãozinho por exemplo. Isso funciona eles, porque eles não sentem vergonha e não complicam as coisas, simples assim!

Por isso, se você estiver com vontade de evacuar, vá ao banheiro e pronto, independente de estar no seu trabalho ou no shopping, porque depois que o estímulo passar, as coisas se tornam mais difíceis, preste atenção nisso!

 

Ninguém é obrigado a ir ao banheiro todos os dias!

Como já foi dito o hábito intestinal normal varia muito de pessoa para pessoa. Mas devemos nos preocupar se existir uma nítida alteração do hábito intestinal que se torne permanente, ou seja, seu intestino funcionava de uma maneira e agora está bem mais lento ou mais acelerado. 

Leia neste link o que eu já escrevi aqui no nosso blog com o título “Será que somos todos constipados?”, vale a pena.

 

E os gases, a culpa é ou não do intestino?

A maior parte dos gases que chegam ao final do intestino são ingeridos. Por isso que a causa mais comum de gases é a aerofagia, termo que literalmente significa engolir ar. Acontece comumente nos fumantes, nas pessoas que mascam chicletes com frequência, que falam bastante (profissionais que trabalham falando o tempo todo, como professores, locutores, atendentes de telemarketing…), quando consumimos bebidas gaseificadas e nos pacientes ansiosos ou com outros distúrbios do humor.

Apenas 10 % dos gases que são eliminados como flatos, são produzidos desta forma nos intestinos e depende bastante do que comemos. Dietas ricas em proteínas, fibras e leguminosas são dietas formadoras de gases. Outras causas são a intolerância à lactose, a doença celíaca (intolerância ao glúten), gastroenterocolite aguda, parasitoses, síndrome do intestino irritável, super crescimento bacteriano, constipação intestinal e algumas cirurgias intestinais.

Se o seu problema são os gases, sugiro que leia isso aqui.

 

E como resolver o problema?

Primeiramente precisamos afastar doenças orgânicas e o uso de medicamentos que possam estar causando a constipação. Depois disso, precisamos de três coisas básicas antes de recorrermos aos laxantes:

  • Água, muita água! (devemos tomar pelo menos 2 litros de água por dia. Fibras sem água não resolvem nada);
  • Atividade física (isoladamente, a atividade física regular não é capaz de resolver a constipação, mas é um fator importantíssimo quando associado às demais medidas. Por outro lado, a baixa mobilidade física reduzida que acontece nos idosos e nos pacientes que estão limitados por uma cirurgia ortopédica, por exemplo, piora muito a constipação);
  • Fibras (naturais e/ou sintéticas) em quantidade adequada. É recomendado o consumo diário de 25-30 g de fibras. Uma dieta com muita fibra, por outro lado, pode causar efeitos indesejados como distensão abdominal, gases e dores em cólicas.

 

Vinte e cinco gramas de fibra por dia na dieta é moleza, certo?

Infelizmente não é bem assim. Veja alguns exemplos da quantidade de fibras por porção de alimentos e veja que é necessário alguma determinação para ingerir a quantidade necessária. Em alguns casos podemos suplementar a quantidade de fibras da dieta com uma suplementação.

  • Alface – 2 folhas médias contêm 1 g de fibras
  • Arroz integral cozido  – ½ xícara (chá) contém 2 g de fibras
  • Aveia em flocos – 1 xícara (chá) contém 3 g
  • Cenoura – 1 unidade média contém 5 g
  • Farelo de trigo – 2 colheres (sopa) contêm 5 g
  • Maçã com casca – 1 unidade média contém 5 g
  • Pão francês – 1 unidade contém 1 g

Se você quiser ver a tabela completa, ela se encontra neste link.

 

Já fiz de tudo e não resolve

Depois de ter sido feita uma avaliação médica adequada e mesmo tomando bastante água, fazendo exercícios regularmente e ingerindo bastante fibra meu intestino não funciona, o que fazer?

Neste momento, e só depois de tudo isso ter sido feito, nós somos obrigados a recorrer aos laxantes.

 

Principais tipos de laxantes

  • formadores de massa, também chamados hidrofílicos (psyllium, polissacarídeos, farelo e metilcelulose), não são digeridos pelo organismo e têm propriedade de aumentar o volume fecal retendo água;
  • lubrificantes (óleos mineral, óleo vegetal e os docusatos), não são absorvidos e não são digeridos, amolecem as fezes e facilitam a sua eliminação;
  • osmóticos (lactulose, sorbitol, sais de magnésio, sais de sódio e glicerina), pela sua propriedade osmótica, retém água nas fezes facilitando a sua exoneração;
  • estimulantes ou irritativos (chá de sene, bisacodil, cáscara sagrada e o óleo de rícino), atuam diretamente na parede dos intestinos causando sua contração;

Atenção – laxantes não são substâncias que servem para perder peso! Você vai encontrá-los em algumas fórmulas para emagrecer, mas à semelhança dos diuréticos, atuam apenas diminuindo a sensação de inchaço (no caso dos laxantes diminuindo os gases e no caso dos diuréticos diminuindo a retenção de líquidos).

 

E quais os riscos de se tomar laxantes muito cedo?

O grande problema é que laxantes viciam os intestinos. Com o tempo o seu efeito diminui, o que faz com que o paciente fique trocando de laxantes o tempo todo. 

Esses medicamentos são adquiridos no Brasil com muita facilidade nas drogarias e sem receita médica e são estimulados pelo consumo implacável da mídia e muitas vezes sugerido pelo balconista e não por um farmacêutico. 

Por isso quando o paciente vai ao consultório ele já tomou e experimentou praticamente de tudo. Isso dificulta muito o tratamento, porque o paciente já está cansado dessa situação, já passou por vários médicos também e, definitivamente, não quer começar do começo. Na maioria das vezes o que o paciente deseja é um medicamento novo, de preferência da classe dos estimulantes ou irritativos, que são os que funcionam prontamente, mas infelizmente, também são os que mais fazem mal a longo prazo. 

Os laxantes tem efeitos colaterais como inchaço abdominal, dores em cólicas, diarreia, desidratação, alterações eletrolíticas e riscos de perfuração intestinal em casos especiais. Laxantes irritativos não devem ser usados em pacientes com possível obstrução intestinal, por isso não faça uso de qualquer jeito e sem orientação médica especializada.

 

Existe cirurgia para constipação?

A resposta é SIM. É claro que estamos falando de casos, absolutamente, de exceção! Tratamentos radicais como a ressecção de segmentos colônicos devem ser muito bem individualizados e são para casos onde não há mais o que fazer. Classicamente a cirurgia que é feita é a colectomia subtotal, com ressecção de todo o intestino grosso, ficando apenas o reto, que é então ligado diretamente ao intestino fino. Esse procedimento pode ser realizado por laparoscopia ou pela cirurgia robótica, o que facilita o pós-operatório, mas este tipo de cirurgia pode causar diarreia permanente e de difícil controle.

Fecalomas são fezes que ficam empedradas nos intestinos e podem causar obstrução intestinal. Pode ser necessário uma lavagem intestinal, ressecção manual das fezes pelo cirurgião com o paciente anestesiado e até ressecções de segmentos intestinais com colostomia, que é a abertura de um segmento intestinal na parede abdominal.

Existem cirurgias específicas para casos de doença de Chagas (doença adquirida pela picada do barbeiro) e a doença de Hirschsprung (congênita), mas que não são objetos da nossa conversa aqui.