Neste post eu queria chamar a atenção para o uso indiscriminado, irregular e sem critérios dos chamados Inibidores das Bombas de Prótons (IBP), que são os conhecidíssimos Omeprazol, Lanzoprazol, Pantoprazol e Esomeprazol, entre outros. Todo mundo conhece alguém que toma esses medicamentos  há anos e não fica sem eles de jeito nenhum, não é mesmo? E quem nunca sugeriu para um amigo tomar um omeprazol depois de ter exagerado um pouco?

Pois é, esta classe de medicamentos é uma das mais consumidas no país. Em apenas em um ano comercializamos mais de 50 milhões de unidades no Brasil e este número só vem crescendo.

 

Tudo errado?

O que os estudiosos têm observado há tempos é que, na maioria das vezes, não há indicação médica adequada, a dose ingerida é usualmente bem maior do que  de fato seria necessário e o tempo de uso também é bastante superior ao que seria preconizado. Geralmente para o tratamento de uma gastrite, precisaríamos apenas de 3-4 semanas, para úlceras de 6-8 semanas e para a doença do refluxo seriam 12 semanas de tratamento com IBP.

 

Dependência

Outro fato muito interessante é a dependência que os pacientes adquirem a este tipo de medicamento com o seu uso prolongado. E aqui eu não falo de dependência química, pela necessidade de estarem consumindo o medicamento, mas da dependência psíquica mesmo. Eu explico: estes medicamentos atuam apenas reduzindo significativamente a quantidade de ácido que é produzida no seu estômago, apenas isso. Muitos pacientes, entretanto, acreditam que estes medicamentos são capazes de solucionar problemas como enjoo, mal estar, dores de cabeça, boca amarga, estufamentos no abdome e etc, mas isso não acontece. Curiosamente o paciente passa a fazer uso desses medicamentos cronicamente e acaba atribuindo as suas queixas à falta do medicamento, quando ele não é consumido. Há estudos que mostram que quem começa a usar os IBP tem dificuldade para suspendê-los.

 

Proteção do Estômago

Também é interessante ressaltar uma prática muito comum e igualmente questionável de muitos médicos que prescrevem estes medicamentos com a função de “proteger” o estômago. Quando o uso é por tempo limitado, tudo bem. Mas o pior é que eles são comumente prescritos em formulações que o paciente usará pela vida toda.

Atenção: estes medicamentos não possuem a capacidade de desenvolver qualquer tipo de proteção para o estômago, eles apenas diminuem radicalmente a secreção de ácido para o interior do estômago!

Existem sim alguns medicamentos que formam uma barreira gástrica protetora, como por exemplo o sucralfato, mas definitivamente não estamos falando dos IBP.

 

Mas será que é importante termos ácido no estômago?

Claro que sim! O ácido clorídrico que produzimos no estômago funciona como uma importante barreira de proteção para infecções, auxilia em muito na nossa digestão quebrando proteínas e ativando algumas enzimas (psinogênio em pepsina, por exemplo).

 

Efeitos Colaterais

Acredita-se que o uso crônico de altas doses de IBP afeta a absorção de cálcio, magnésio e vitamina B12, já que o ácido facilita a assimilação e ionização de formas menos solúveis de cálcio dietético e a liberação de vitamina B12 em alimentos.

Alguns estudos sugeriram que o risco de fratura de quadril foi aumentado com o uso prolongado de IBP e foi especialmente aumentado naqueles pacientes que receberam altas doses. Há ainda estudos que relacionam o uso crônico com a má absorção do cálcio pelos ossos podendo levar assim a osteoporose.

Estudos observacionais retrospectivos e suas metanálises também demonstraram uma ligação potencial entre o uso de IBPs e o desenvolvimento de pneumonia adquirida na comunidade, mas isso não é bem aceito na comunidade científica, sendo os achados atribuídos à vieses dos métodos e da inclusão de pacientes com doença do refluxo gastroesofágico que já são mais suscetíveis à broncopneumonias.

Além disso, há evidências de que o uso de IBP pode aumentar a suscetibilidade do paciente a inúmeras infecções entéricas, incluindo sobrecrescimento bacteriano no intestino delgado: Salmonella, Campylobacter jejuni e Clostridium difficile.

Estudos recentes sobre a administração de IBP em animais (ratos e camundongos) têm mostrado que a inibição da acidez gástrica, leva a hipergastrinemia, com hiperplasia celular e a observação de tumores carcinóides do estômago e cólon nos animais testados, embora tais fenômenos não tenham sido constatados em seres humanos.

Risco de demência – Embora alguns estudos tenham encontrado associação significativa entre o uso de IBP e a demência incidente, outros não encontraram associação entre o uso de IBP e a função cognitiva

Nefrite intersticial aguda também já foi associado ao uso crônico de IBP.

 

Câncer de Estômago

Um estudo da Universidade de Hong Kong e da University College London mostrou que o uso prolongado de inibidores de bomba de próton (IBP), como Omeprazol e Pantoprazol, pode aumentar em 2,4 vezes o risco de desenvolver câncer de estômago. A pesquisa foi publicada no jornal científico Gut no dia 31 de outubro de 2017 e considerou uma base de dados de saúde em todo o território de Hong Kong. Apesar de causar certo espanto, não podemos concluir definitivamente que os IPB possam causar câncer de estômago, baseado apenas neste estudo. Mas fica o alerta!

 

Moral da História

Não faça uso de nenhum medicamento por conta própria sem a devida orientação médica. Medicamentos possuem diversos efeitos colaterais, muitos deles indesejados e perigosos. Se você tem sintomas de azia, queimação e dores no estômago procure sempre um especialista e evite a automedicação.

 

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